"cago"
cago
hoje eu cago um poema
pra você
pra ele, pra ela
pra nós
que parte fazemos do todo?
que parte fazemos da merda?
cago, sem dúvida
cago, mas hoje
um poema
que não saía mais de minhas mãos, dedos
canetas
boca, olhos,
pinto ou buceta
hoje me sai um poema
é do cu
pois não me resta outra saída
pra falar
do desencontro entre o que eu gostaria
que houvesse no mundo
e o que há
especialmente no brasil
são paulo, minas
paraná
sertão
rios, matas
e o mar
e ainda
a atualíssima
piada
do protesto pela
militarística intervenção
sendo tratado cordial e
heroicamente pela televisão,
enquanto o protesto
em prol de uma melhor
educação
é militaristicamente
escurraçado
ah, essa piada
me arranca lágrimas
mil lágrimas
porém
sem nenhuma risada
por isso hoje cago
esse poema-petardo
pra ti, pra eles
pra mim, pra todos
para o absurdo que é
esse lugar que vivemos
que se quer
bater humilhar matar
matar matar
e só depois talvez prender
jovens
muito antes de criar
a condição
para que sejam
outros que não
bichos bandidos,
bons-bandidos-mortos
muito antes de criar a condição
para que sejam humanos
e desse modo
fazemo-nos também
desumanos
por isso hoje cago
cago
cago
cago
um poema-soluço
e espero
com irônica e talvez egoísta
raiva
eu espero
que não me estoure
a hemorróida
quarta-feira, 29 de abril de 2015
terça-feira, 10 de março de 2015
Ok
Textículo escrito por mim no segundo semestre de 2014, e encontrado recentemente em um caderno no qual eu não costumo escrever muito.
A surpresa com essas palavras, ou melhor, a atualidade com que essas palavras me tocam e me traduzem hoje... foi impressionante.
Em tudo há guerra. Nos panelaços de varanda gourmet, nas críticas ácidas, nos sarcasmos, na hipocrisia presente em tudo e todos, na violência que todos trazem consigo a todo o tempo sem perceber.
Em tudo há guerra.
O que somos no meio disso? O que fazemos?
Ou melhor: como não fazer mais isso, dessa maneira - como não ser mais assim?
*
Eis o texto:
Ok, então há o ser humano para ser mexido. Em mim, primeiramente.
Como tenho me movido? O que tenho feito?
Em época de eleição nenhum mar tá pra peixe. Se é que há mar e/ou peixe.
Em tudo há ódio. Em tudo.
Crescer é perceber o mundo à volta e morrer de desgosto?
A surpresa com essas palavras, ou melhor, a atualidade com que essas palavras me tocam e me traduzem hoje... foi impressionante.
Em tudo há guerra. Nos panelaços de varanda gourmet, nas críticas ácidas, nos sarcasmos, na hipocrisia presente em tudo e todos, na violência que todos trazem consigo a todo o tempo sem perceber.
Em tudo há guerra.
O que somos no meio disso? O que fazemos?
Ou melhor: como não fazer mais isso, dessa maneira - como não ser mais assim?
*
Eis o texto:
Ok, então há o ser humano para ser mexido. Em mim, primeiramente.
Como tenho me movido? O que tenho feito?
Em época de eleição nenhum mar tá pra peixe. Se é que há mar e/ou peixe.
Em tudo há ódio. Em tudo.
Crescer é perceber o mundo à volta e morrer de desgosto?
terça-feira, 24 de fevereiro de 2015
Escritos de cadernos antigos - Caderno azul (2009/2010)
escrever
é criar
mundos possíveis
almas novas,
efêmeras
que nos habitam
enquanto
a tinta se
mover no papel.
escrever acontece.
quem lê
e sente,
percebe.
**
2
Por uma vez apenas
não me embriago.
É de tarde,
um vento bate
em minha barba seca
e o que o sol esquentou
agora esquenta
minha humilde bunda.
As pessoas que passam
por aqui
ou trabalham
ou vão trabalhar
ou já trabalharam.
E sobro eu.
Neste meio tempo
em que vivemos,
estou, sóbrio,
à escrever mais
um montinho de merda.
Pra limpar
no bigode
do mundo.
Que alguém sinta
o meu cheiro
Eu não mais
me aguento.
E por isso
comprei um
REXONA ABSOLUTE GINSENG.
Sempre gostei de coisas orientais.
GINSENG.
Vou atear fogo
em alguém
com essa merda.
Foda-se.
Não tenho combustível
mesmo.
Então torro alguém
e depois miro
pro chão
e viro um foguete.
No jornal futuro
sai uma notícia
sobre a Lua.
E um incêndio
ocorrido nela.
**
A vida é
e nunca vai deixar
de ser
uma caixa absurda
de coisas que pulam
e cantam
e catam
quem estiver à volta
e levam
pras lonjuras
mais oníricas
que a morte inda
não toca.
**
POEMA NU
Este poema parte
da ilusão.
Sei que não preciso
de roupas neste universo.
Mas sei o quanto preciso
de roupas neste mundo.
Recolhendo cacos
do que fui hoje à noite,
recolho icebergs
do que sou nesta vida.
Como derreter o gelo?
Tenho mil raivas
em meu pulmão,
que, cristalinas que são,
permitem-me ver
o que há além delas,
mas nunca tocar através.
Como ir além do meu sono?
Como ser além de meus socos?
Não é segredo algum
que tenho medo.
Tampouco que mal enxergo
minha letra,
meu caminho.
Mas há um segredo
que alivia meu sufoco.
Sei que consigo,
mesmo que por um átimo,
olhar no olho
e dizer com sinceridade
bom dia.
sexta-feira, 10 de janeiro de 2014
Quero te dizer também
que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função
das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras,
sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital,
mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo
dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela
morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos
farão plenos e verdadeiros.
Lygia Fagundes Telles
em As Meninas
segunda-feira, 28 de outubro de 2013
o pranto entoado
no quarto ao lado,
a pergunta que se repete
em meio à suspiros,
nariz escorrendo,
desespero,
os cochichos de explicações
me lembram
meus términos,
minhas quebras,
minhas suturas.
causar hemorragia
em quem se gosta
é a coisa mais difícil
do mundo.
(achado nos arquivos do blog, sei lá de quando. mas ironicamente, se faz absurdamente atual hoje.)
no quarto ao lado,
a pergunta que se repete
em meio à suspiros,
nariz escorrendo,
desespero,
os cochichos de explicações
me lembram
meus términos,
minhas quebras,
minhas suturas.
causar hemorragia
em quem se gosta
é a coisa mais difícil
do mundo.
(achado nos arquivos do blog, sei lá de quando. mas ironicamente, se faz absurdamente atual hoje.)
domingo, 27 de outubro de 2013
信愛永慕
お前に心から伝えたいe. e. cummingsの言葉。
英語頑張ってね。
We do not believe in
ourselves until someone reveals that deep inside us something is valuable,
worth listening to, worthy of our trust, sacred to our touch. Once we believe
in ourselves we can risk curiosity, wonder, spontaneous delight or any
experience that reveals the human spirit.
*
Love is a place
& through this place of
love move
(with brightness of peace)
all places
yes is a world
& in this world of yes live
(skillfully curled)
all worlds
*
For whatever we lose (like a you or a me),
It's always our self we find in the sea.
It's always our self we find in the sea.
*
it may not always be so; and i say
that if your lips, which i have loved, should touch
another's, and your dear strong fingers clutch
his heart, as mine in time not far away;
if on another's face your sweet hair lay
in such a silence as i know, or such
great writhing words as, uttering overmuch,
stand helplessly before the spirit at bay;
if this should be, i say if this should be-
you of my heart, send me a little word;
that i may go unto him, and take his hands,
saying, Accept all happiness from me.
Then shall i turn my face, and hear one bird
sing terribly afar in the lost lands.
(e.e. cummings作詞)
quarta-feira, 2 de outubro de 2013
Como se volta para as antigas roupas?
Que corpo é este que as veste agora?
Que pele as toca?
Que suor as umedece?
Lágrimas me acompanham, sempre.
Sou eu também quem chora?
Como voltar,
se é que há volta?
Como ser
inteiro
a pele que veste
as roupas de agora?
航海する海は涙で作る
koukaisuru umi wa namida de tsukuru
De lágrimas faço
o mar pra navegar
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