dizem que toda arte é produzida com 1% de inspiração e 99%
de transpiração.
pois bem.
sempre tive minhas tretas com isso. talvez por achar que
inspiração é muito maior do que esse 1%. talvez por pensar que esse papo é de
quem não tem realmente inspiração.
hoje a coisa é diferente.
vejo que inspiração é
de fato algo passageiro. mas não dá pra medir a proporção, nem comparar com a
tal da transpiração. não acredito que nenhum desses elementos sejam mensuráveis,
e também não gosto da ideia que essa proporção, de 1 pra 99, pode acabar
passando – de que a inspiração é uma coisa boba, e que o que importa mesmo é a
labuta do artista para ser bom.
inspiração é algo que ocorre, toma conta, sacode, arrepia e
vai embora. vai embora mesmo. volta outro dia, de outro jeito, sobre outra
coisa, com outras cores. falando outra língua. é quando algo de dentro da gente
de repente se junta com algo que acontece do lado de fora, e esse encontro produz
uma sensação diferente do habitual.
talvez a transpiração seja o conseguir dar conta desse
momento sem tempo em que algo de dentro se sacode, em que os olhos enxergam
diferente. dar conta, prestar muita atenção, e deixar ele passar, para
trabalhar então com a memória, com a sensação que ele deixou.
talvez essa seja a transpiração, porque realmente não é
fácil. emburacar na memória, buscando um rastro do relâmpago que passou, do
vento que sacudiu as folhas da árvore, diferente do vento que as sacode agora.
e cutucar a memória, recheada de afetos, não é algo simples. pelo menos não
para mim. os caminhos vão se abrindo, e não dá pra controlar muito pra onde o
coração vai.
a transpiração acontece pelo esforço de saber separar as
coisas. porque às vezes certas portas se abrem, e algumas lembranças saem,
trazendo seus cheiros, seus sons, seus medos e suas coragens. e a canseira que
dá é a de decidir se essa ou aquela porta é melhor para o momento, para o que
se quer criar.
hoje entendo criação como isso: mergulhar em si, buscar
combustível na memória que case com a inspiração que bateu. e disso fazer algo
novo, que valha a pena ser dito, ser expresso. que seja verdadeiro, honesto –
resultado desse mergulho, dessa entrega para mais de uma coisa ao mesmo tempo: você
mesmo, a memória, a inspiração, o ponto de interrogação que sabe que algo novo
pode ser feito, ou algo velho, mas de um novo jeito.
é dessa relação e desse comprometimento, que pode ser mais
ou menos excludente e intenso, é dessa aventura que se dá a transpiração. esse
é o trampo, a treta do artista. e não o pensamento de "como fazer desta obra algo grande e imortal", "como tornar esse verso perfeito e inquestionável". pra mim esse é o entendimento que só tem aqueles que não conseguem produzir nada artisticamente, e por isso, acham que aqueles que o conseguem o fazem desse modo, com esse coração arrogante e excludente.
não sei. só que sei eu não faço assim e não acredito que isso deva ser feito assim.
ser "perfeito e inquestionável", leia-se: tocar as pessoas, com maior ou menor força, é apenas consequência da entrega do artista e da entrega de quem é tocado por sua obra. da entrega para um momento, da entrega para a inspiração.
e para isso, para dar conta desse momento com tudo o que se tem e tudo o que se é, tanto artista quanto leitor precisam de coragem. muita, muita coragem.
não sei. só que sei eu não faço assim e não acredito que isso deva ser feito assim.
ser "perfeito e inquestionável", leia-se: tocar as pessoas, com maior ou menor força, é apenas consequência da entrega do artista e da entrega de quem é tocado por sua obra. da entrega para um momento, da entrega para a inspiração.
e para isso, para dar conta desse momento com tudo o que se tem e tudo o que se é, tanto artista quanto leitor precisam de coragem. muita, muita coragem.
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