terça-feira, 23 de junho de 2015

Algumas renúncias


ALGUMAS RENÚNCIAS


Há que serem feitas algumas renúncias.
Para trilhar qualquer caminho,
mas o meu, que eu já sigo
porque já o sou
há que serem feitas algumas
renúncias.

Renúncias e imposições.
Pois serei sou fui
questionado, me afirmo
pois me firmo
e me sigo, em pé
em fé, à pé
trilhando qualquer caminho,
mas o meu, que eu já sigo
porque o sou.

Basta caminhar, porém
para desde já se ir além
que serem feitas algumas
renúncias.

E denúncias, de si
para si – psiu!
ei! respira e faz
direito, relaxa, não
perde a postura, você tá
realmente se sentindo?

Atento. Denúncia para
quando não estiver.
Aquele dentro de mim
nos momentos
que inda hão de vir
deve aprender a
mais atento
respirar e existir.

Renúncias: àquilo
que, talvez deliciosamente,
me tire de mim.
Renúncia: sairei,
inevitavelmente, de
mim no caminho,
mas renuncio à
demora em voltar.

Eis o que o tempo
me trouxe:
perceber-me com vagar.

Para trilhar qualquer caminho,
mas o meu, que eu já sigo
pois o sou.
Há de haverem algumas
renúncias, e, depois delas
o próprio caminho há de
mostrar
o entendimento-porquê.

Caminho.
Em renúncia ao que
o atravessa de mau jeito,
em entrega ao que
se lhe abre por
inteiro: caminho.

Hei de merecê-lo.

Para então,
possivelmente,
esquecer-me.

E eis que:
sê-lo.





Kodzure Ookami - O Lobo Solitário, por Goseki Kojima.



Michi - Caminho, por Morita Shiryuu.


quarta-feira, 29 de abril de 2015

cago

"cago"

cago

hoje eu cago um poema
pra você

pra ele, pra ela
pra nós

que parte fazemos do todo?
que parte fazemos da merda?

cago, sem dúvida
cago, mas hoje

um poema

que não saía mais de minhas mãos, dedos
canetas

boca, olhos,
pinto ou buceta

hoje me sai um poema
é do cu

pois não me resta outra saída
pra falar

do desencontro entre o que eu gostaria
que houvesse no mundo
e o que há

especialmente no brasil
são paulo, minas
paraná
sertão
rios, matas
e o mar

e ainda
a atualíssima
piada
do protesto pela
militarística intervenção
sendo tratado cordial e
heroicamente pela televisão,

enquanto o protesto
em prol de uma melhor
educação
é militaristicamente
escurraçado

ah, essa piada
me arranca lágrimas
mil lágrimas
porém
sem nenhuma risada

por isso hoje cago
esse poema-petardo

pra ti, pra eles
pra mim, pra todos

para o absurdo que é
esse lugar que vivemos

que se quer
bater humilhar matar
matar matar
e só depois talvez prender
jovens

muito antes de criar
a condição
para que sejam
outros que não
bichos bandidos,
bons-bandidos-mortos

muito antes de criar a condição
para que sejam humanos

e desse modo
fazemo-nos também
desumanos

por isso hoje cago
cago
cago
cago

um poema-soluço

e espero
com irônica e talvez egoísta
raiva
eu espero
que não me estoure
a hemorróida

terça-feira, 10 de março de 2015

Ok

Textículo escrito por mim  no segundo semestre de 2014, e encontrado recentemente em um caderno no qual eu não costumo escrever muito.

A surpresa com essas palavras, ou melhor, a atualidade com que essas palavras me tocam e me traduzem hoje... foi impressionante.

Em tudo há guerra. Nos panelaços de varanda gourmet, nas críticas ácidas, nos sarcasmos, na hipocrisia presente em tudo e todos, na violência que todos trazem consigo a todo o tempo sem perceber.
Em tudo há guerra.
O que somos no meio disso? O que fazemos?
Ou melhor: como não fazer mais isso, dessa maneira - como não ser mais assim?



*

Eis o texto:


Ok, então há o ser humano para ser mexido. Em mim, primeiramente.
Como tenho me movido? O que tenho feito?
Em época de eleição nenhum mar tá pra peixe. Se é que há mar e/ou peixe.
Em tudo há ódio. Em tudo.
Crescer é perceber o mundo à volta e morrer de desgosto?

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

Escritos de cadernos antigos - Caderno azul (2009/2010)

escrever
é criar
mundos possíveis

almas novas,
efêmeras
que nos habitam
enquanto
a tinta se
mover no papel.

escrever acontece.

quem lê
e sente,

percebe.

**


2

Por uma vez apenas
não me embriago.

É de tarde,
um vento bate
em minha barba seca
e o que o sol esquentou
agora esquenta
minha humilde bunda.

As pessoas que passam
por aqui
ou trabalham
ou vão trabalhar
ou já trabalharam.

E sobro eu.

Neste meio tempo
em que vivemos,
estou, sóbrio,
à escrever mais
um montinho de merda.

Pra limpar
no bigode
do mundo.

Que alguém sinta
o meu cheiro
Eu não mais
me aguento.

E por isso
comprei um
REXONA ABSOLUTE GINSENG.

Sempre gostei de coisas orientais.

GINSENG.

Vou atear fogo
em alguém
com essa merda.

Foda-se.

Não tenho combustível
mesmo.
Então torro alguém
e depois miro
pro chão
e viro um foguete.

No jornal futuro
sai uma notícia
sobre a Lua.
E um incêndio
ocorrido nela.


**

A vida é
e nunca vai deixar
de ser
uma caixa absurda
de coisas que pulam
e cantam
e catam
quem estiver à volta
e levam
pras lonjuras
mais oníricas
que a morte inda
não toca.

**

POEMA NU

Este poema parte
da ilusão.

Sei que não preciso
de roupas neste universo.
Mas sei o quanto preciso
de roupas neste mundo.

Recolhendo cacos
do que fui hoje à noite,
recolho icebergs
do que sou nesta vida.

Como derreter o gelo?

Tenho mil raivas
em meu pulmão,
que, cristalinas que são,
permitem-me ver
o que há além delas,
mas nunca tocar através.

Como ir além do meu sono?
Como ser além de meus socos?

Não é segredo algum
que tenho medo.

Tampouco que mal enxergo
minha letra,
meu caminho.

Mas há um segredo
que alivia meu sufoco.

Sei que consigo,
mesmo que por um átimo,
olhar no olho
e dizer com sinceridade

bom dia.