De tão fenomenal
O que eu faço da minha vida de tão fenomenal que não posso
parar uns minutos e olhar pra minha avó com carinho, para os vizinhos tão
generosos, para um amigo ou outro distante mas não menos querido, para meu pai
que tanto se esforça na vida, para o céu que sempre oferece alívio, para o chão
que sempre oferece beleza apesar da sujeira.
O que eu faço da minha vida de tão fenomenal que me faz
querer ainda mais, quando nada basta, nenhum encontro, nenhum olhar palavra
abraço beijo afago trepada serve, porque mal serve pra aliviar – que eu faço?
Se minha vida de tão fenomenal não se basta, quanto mais um pequeno encontro de
amigo, quando acontece, se acontece (em meio a essa cidade que tanto impede).
Que eu faço de tão incrível que não cabe mais nenhum poema, mas cabe horas no
smartphone esperando o busão, cabe uma respiração falha que não preenche o
corpo, cabe minuto atrás de minuto enrolando o cabelo e pensando corto ou não
corto, corto ou não corto, corto ou não corto.