domingo, 18 de fevereiro de 2018

De tão fenomenal



De tão fenomenal

O que eu faço da minha vida de tão fenomenal que não posso parar uns minutos e olhar pra minha avó com carinho, para os vizinhos tão generosos, para um amigo ou outro distante mas não menos querido, para meu pai que tanto se esforça na vida, para o céu que sempre oferece alívio, para o chão que sempre oferece beleza apesar da sujeira.
O que eu faço da minha vida de tão fenomenal que me faz querer ainda mais, quando nada basta, nenhum encontro, nenhum olhar palavra abraço beijo afago trepada serve, porque mal serve pra aliviar – que eu faço? Se minha vida de tão fenomenal não se basta, quanto mais um pequeno encontro de amigo, quando acontece, se acontece (em meio a essa cidade que tanto impede). Que eu faço de tão incrível que não cabe mais nenhum poema, mas cabe horas no smartphone esperando o busão, cabe uma respiração falha que não preenche o corpo, cabe minuto atrás de minuto enrolando o cabelo e pensando corto ou não corto, corto ou não corto, corto ou não corto.

Lembro

Lembro



lembro – e acho tão difícil saber o que é lembrar e o que é imaginar – das tantas noites que adormeci em cima de você, num sono incontrolável e belo. a gente pelado e o sexo que era tão outra coisa, antes de dormir sem nem perceber. quando de repente acordava, estava ainda dentro de ti. seus braços que tão ternamente me acolhiam, e eu que delirava por estar ali também te acolhendo. a chuva que cai pesada lá fora, o escuro, o calor que emana da gente, o tesão de poder ser tudo sem ter que ser nada, e sermos. pelados, e tua nudez que me era tão outra coisa, que me vociferava e ao mesmo tempo enternecia. que tesão é esse que assola e reconforta a um só tempo? chuva pesada lá fora, delírio leve aqui dentro.
já te escrevi isso, já publiquei isso, já te enviei e reenviei isso: quando te ver acordar me faz descrer estar acordado, quando tua nudez me assola pelo resto do dia, pelo resto dos dias. e parece que nada adiantou, a não ser praquela época, praquela época. agora eu só imagino, continuo louco e terno como era quando você comigo. e sigo sem saber se o que eu sinto é saudade: de ontem ou de amanhã.