terça-feira, 10 de julho de 2018

Juqueí - Julho 2018


Estar aqui traz muitas lembranças.
Logo que entrei fiquei emocionado, ao ver os pratos, louça antiga, uma estante de madeira, marcas aconchegantes dos encontros com tio Ronaldo, tia Sonia, Gab e Ju.
Fiquei com muita saudade do meu tio, especialmente, e senti que gostaria muito de estar com ele agora, tomar uma cerveja ou um vinho, fazer um rango, conversar.
Como a morte pode ser triste, às vezes, quando imaginamos como seria se a pessoa querida ainda estivesse aqui. Sobre o que conversaríamos? Do que daríamos risada?
A morte da Juju recentemente foi uma espécie de gota d’água pra mim, um alarme que soou internamente e me disse que não dá mais pra ficar de lenga-lenga, temos que aproveitar tudo ao máximo. Não há amanhã. E temos que desfrutar da presença de pessoas queridas o máximo possível. Vibrar em alegria juntos, tanto quanto puder, deixando cair possíveis besteiras e receios, medos e ranços que possam existir.
O maior clichê do mundo é verdade: a vida é muito curta pra ficar dando corda pra besteirada da mente e das relações. Que caiam todas as mágoas e desavenças. Que possamos vibrar no encontro, em alegria, e que possa haver diálogo e criação.
É essa reflexão maior que me vem depois da morte da Julia, e é bem por aí que eu gostaria de caminhar a partir de agora. Estar aqui pra mim é um descanso, um repouso absolutamente necessário depois desses meses – mas é também um reencontro, um luto, um interlúdio silencioso que precisava há muito.
Um reencontro com o mar, com o sol, com a areia e os ventos que vem do oceano. Um reencontro com Hermann Hesse, e a lembrança daquele primeiro encontro de 2004, quando pela primeira vez li, aqui, também em julho, Demian e Sidarta.
Estar aqui é um luto, que só posso viver solitário, mesmo que sem lágrimas nem nada demais. Mas ainda assim, uma possibilidade de. Um perceber-me na quietude, sem ninguém por perto – um escancarar-me a mim mesmo, tal qual nos faz a parede do zazen.
Estar aqui dessa vez e desse modo é umas férias preciosas para poder também achar em mim o espaço de criar algo novo, ou de continuar criando o que já quero, mas não há corpo. Somente com o descanso é possível preparar os ossos e os músculos e assim separar o ritmo da marcha que vinha vindo até aqui. Sensibilizar o corpo, sensibilizar o coração e a mente mais uma vez, e só com o repouso e o ócio isso é possível.
Estar aqui hoje é esse interlúdio entre uma responsabilidade e outra, para um talvez perceber uma responsabilidade maior: viver deliberadamente, com poesia e sem medo da morte.
Entrar no mar todos os dias traz-me isso novamente, traz-me a mim, traz-me à vida.
Reencontro com o mar, mestre, mãe. E com a saudade, gratidão que nunca termina.

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