Estar aqui traz muitas lembranças.
Logo que entrei fiquei emocionado, ao ver os pratos, louça
antiga, uma estante de madeira, marcas aconchegantes dos encontros com tio Ronaldo,
tia Sonia, Gab e Ju.
Fiquei com muita saudade do meu tio, especialmente, e senti
que gostaria muito de estar com ele agora, tomar uma cerveja ou um vinho, fazer
um rango, conversar.
Como a morte pode ser triste, às vezes, quando imaginamos
como seria se a pessoa querida ainda estivesse aqui. Sobre o que
conversaríamos? Do que daríamos risada?
A morte da Juju recentemente foi uma espécie de gota d’água pra
mim, um alarme que soou internamente e me disse que não dá mais pra ficar de
lenga-lenga, temos que aproveitar tudo ao máximo. Não há amanhã. E temos que
desfrutar da presença de pessoas queridas o máximo possível. Vibrar em alegria
juntos, tanto quanto puder, deixando cair possíveis besteiras e receios, medos
e ranços que possam existir.
O maior clichê do mundo é verdade: a vida é muito curta pra
ficar dando corda pra besteirada da mente e das relações. Que caiam todas as
mágoas e desavenças. Que possamos vibrar no encontro, em alegria, e que possa
haver diálogo e criação.
É essa reflexão maior que me vem depois da morte da Julia, e
é bem por aí que eu gostaria de caminhar a partir de agora. Estar aqui pra mim
é um descanso, um repouso absolutamente necessário depois desses meses – mas é
também um reencontro, um luto, um interlúdio silencioso que precisava há muito.
Um reencontro com o mar, com o sol, com a areia e os ventos
que vem do oceano. Um reencontro com Hermann Hesse, e a lembrança daquele
primeiro encontro de 2004, quando pela primeira vez li, aqui, também em julho,
Demian e Sidarta.
Estar aqui é um luto, que só posso viver solitário, mesmo
que sem lágrimas nem nada demais. Mas ainda assim, uma possibilidade de. Um
perceber-me na quietude, sem ninguém por perto – um escancarar-me a mim mesmo,
tal qual nos faz a parede do zazen.
Estar aqui dessa vez e desse modo é umas férias preciosas
para poder também achar em mim o espaço de criar algo novo, ou de continuar
criando o que já quero, mas não há corpo. Somente com o descanso é possível
preparar os ossos e os músculos e assim separar o ritmo da marcha que vinha
vindo até aqui. Sensibilizar o corpo, sensibilizar o coração e a mente mais uma
vez, e só com o repouso e o ócio isso é possível.
Estar aqui hoje é esse interlúdio entre uma responsabilidade
e outra, para um talvez perceber uma responsabilidade maior: viver
deliberadamente, com poesia e sem medo da morte.
Entrar no mar todos os dias traz-me isso novamente, traz-me
a mim, traz-me à vida.
Reencontro com o mar, mestre, mãe. E com a saudade, gratidão
que nunca termina.
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