sentir-se inevitavelmente só
apesar de tantos comigo
tantos em mim
sobrepeso de ideias
e palavras por onde
escoá-las
não encontro mais
facilmente
podia falar de tanta coisa
mas insisto
mesmo tema de sempre
ausência de poema
dificuldade de escrita
na adultez atual
já há anos que essa
atualidade me habita
e na realidade sigo escrevendo
até hoje
até agora
neste momento
a escrita muda tanto quanto
a gente
e seguimos, ela e eu
inevitavelmente
sós
um pro outro
maneira de ser sozinho
maneira de estar com todos
quando escrevo posso ser tudo
se escrevo, há todos
em mim e comigo
soltar o pensamento nos dedos
quer seja por lápis, caneta
ou por teclas
mas em movimento
soltar o pensamento
de mim
sair-se
de
si
no
ins
tan
te
para saber ser algo entre
mais e menos
por que escrever continua sendo ambos
dor e remédio?
adentrar-se e
abster-se de si
num só tempo
criar outros
outras
coisas tantas além
movimento nuvem
sombra cheia e vazia
usando letras
escrever o que não cabe
na linguagem
como?
ventania e
silêncio
tons de cinza
branco e preto
hoje me são
mais do que eu
enquanto o corpo
febril
alucina
querendo algum tesão
sem nome
sem linguagem
comunicar-se
por entre aléns
deixar solto
o centro do corpo
emanando algo
invisível
poema que dói
porque nunca
termina
igual transar
sem gozar
mas não
infelizmente
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