Caralho, eu tenho 25 anos.
E já sei observar a vida como quem passa.
25 anos de minha mocidade, que ora eu me orgulho, ora me
pergunto se já finda.
Caralho, eu tenho 25 anos.
Quando não tinha barbas na cara (hoje inda insisto em
tê-las), quando precisava de alguém para me cortar as unhas dos pés, quando nem
sabia o que era ser gordo ou magro, quando não sabia escrever, quando inda
cagava nas calças (não que isso hoje não aconteça), quando então comecei a ter
medo dos outros, me lembro de quando passei a desejar mais brinquedos, quando
aprendi a ver filmes com legenda, quando chorava se via animais sofrendo,
quando acordava cedo e saía correndo do quarto pra ver se minha mãe já tinha
ido embora, quando ainda acreditava em tudo o que minha avó me dizia, quando
passava as férias com meu pai, quando acampei a primeira vez, quando quis
aprender a jogar bola e não consegui, quando tive minha primeira decepção
amorosa, quando comecei a ter aulas de bateria, quando usava um boné de
basquete virado pra trás, quando furei a orelha a primeira vez, quando comecei
a andar de skate, quando fiz o bigode a primeira vez, quando fazia capoeira na
escola, quando minha mãe ficou doente, quando eu dizia pra todo mundo que
estava tudo bem, quando eu ouvia música até dormir, quando eu acordei e minha
mãe não estava mais lá, quando minha avó brigou comigo porque eu quis ouvir
música, quando eu fui morar com meu pai, quando eu quase bati em várias pessoas
porque xingaram minha mãe, quando comecei a treinar artes marciais, quando comecei
a ler sobre budismo, quando tomei meus primeiros porres, quando trancei o
cabelo a primeira vez, quando dei meu primeiro beijo, quando comecei a curtir
jazz, quando comecei a curtir Lenine, quando comprei um livro de poesia pela
primeira vez, quando escrevi meus primeiros poemas, quando fiz parte da Roda
Literária, quando conheci o maracatu, quando conheci o Hermann Hesse, quando
sonhei em ser andarilho, quando fiz meu cajado, quando viajei as primeiras
vezes só com os amigos, quando passei o primeiro reveyon só com os amigos,
quando fiquei mais independente, quando comecei a fazer pulseiras, quando
conheci a Monja Coen e comecei a frequentar um templo budista, quando me formei
no colégio, quando entrei na PUC, quando eu sentia vergonha por ser virgem, quando
perdi um grande amigo, quando bebia sozinho, quando saí da PUC, quando tive
aulas de piano, quando voltei a ter aulas de bateria, quando comecei a treinar
Aikido, quando dei a volta na Ilha Grande, quando perdi a virgindade, quando
entrei pro cursinho, quando saí do cursinho (e tive uma das maiores brigas com
meu pai), quando comecei a trabalhar, quando escolhi voltar pro cursinho,
quando trabalhei na Livraria da Vila, quando meu pai foi pro navio, quando eu
morei sozinho, quando eu escolhi sair da Livraria da Vila, quando trabalhei na
Ânima, quando passei na Unesp, quando saí de São Paulo e fui pra Assis com meu
amigo, quando conheci minha primeira namorada, quando comecei a tocar Taiko,
quando comecei a estudar japonês, quando entrei na Oficina de Ritmos, quando
morei sozinho de novo, quando conheci o Thiago de Mello, quando fui morar com
minha namorada, quando vim pro Japão, quando fui a primeira vez num templo no
Japão, quando comecei a ficar independente no Japão, quando fiz 25 anos.
Caralho, eu tenho 25 anos.
E já sei observar a vida como quem passa.
(Escrito em outubro de 2012)
Que lindo, Jony; quando alguém abre assim um pouco da vida a gente vê como todas as vidas passam, como somos tão diferentes e tão iguais.
ResponderExcluirVivi
Foda Jony, muito bonito. Que inspiração melhor do que a própria vida? Acho tão gozaddo pessoas que negam a influência da vida do escritor em sua escrita tem até escritores que fazem isso. Mas é impossível fugir .
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